Insónia (I)
Já ficaram sem conseguir dormir enquanto não se lembravam dum poema da vossa infância?
Um que vocês sabem exactamente em que sítio está na página do livro de Português? (Na página do lado direito, primeiro texto da coluna grande da esquerda, em cima.) Aquele de que não se lembram absolutamente nada - nem de uma quadra, dum verso, duma palavra, nem do autor ao certo (que é o que acontece quando os autores se dividem em quatro ou mais), nem do título (muito menos do título!), nem sequer do tema em geral! Mas que ele existiu naquela página que vocês leram tantas e tantas vezes? Daquela vez que a senhora professora de Português vos mandou escolher um poema para apresentar a toda a turma? Em frente a toda a gente. E depois as leituras seguidas de poemas sem fim, mas voltando, sempre e por qualquer razão desconhecida, àquela página. Se calhar mesmo sem terem ideia do que era ele para quem o escreveu, mas porque na sua medida ele conseguia pôr por palavras algumas das coisas que vocês queriam gritar? Na altura, pelo menos.
Hoje não consegui dormir. São 04h00, mas encontrei-o. Escondido, sob um título que não é o que ele é para mim, e mascarado em todo o lado por outro, mas com três anos de diferença.
O curioso é que não sei como o encaro agora.
Um grito mudo ou um eco?
NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
1 comentários:
"Gritos mudos chamando a atenção"
Há vários factores que provocam as insónias. Imperceptíveis, por vezes.
Tentando desvendar cuidadosamente chegamos à raiz de todos eles. Estás a caminhar delicadamente, não tenhas medo.
Não sei se seria tão certo, como um dia te disse. Penso apenas o que te pode fazer falta e quais as perguntas que te atraiçoam nestas longas e frias noites.
Estamos por cá para te ajudar a senti-las... a poesia somente consegue ter mais voz que nós, pois chega a definições mais pormenorizadas dos sentimentos que muitas vezes nós não conseguimos definir.
Vamos tentando possivelmente na sua leitura, encontrar comparações prováveis para nos descansar nestes momentos... certas/erradas!
(Bonita escolha, já agora)
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