Chão
Já não escrevo aqui há uns dias. Daí até aqui foi tanto ou tão agreste o caminho percorrido que se me doem os pés da alma de tanto pensar. Já desci ainda mais fundo do fundo que eu conhecia e apercebo-me cada vez mais que o que eu julgo ser o chão tem muitos mais fundos que aqueles que a minha vista se atreve a ver. Não posso dizer já que fui sã toda a vida. Mentir é feio. Vivi tempo demais dentro da cabeça Dela que de lá sair e voltar à minha (em tempos que a minha não era digna de suportar o mundo) foi como se me tirassem o chão e lá está - novos fundos. Já não me doem os nós dos dedos de atacar os fantasmas invisíveis das paredes rugosas (eu sempre disse que detestava paredes rugosas), mas as cicatrizes continuam lá e vão, provavelmente, porque isto é tudo um grande disco riscado, abrir-se de novo em qualquer outro tempo ou lugar. Aqueles fantasmas invisíveis feitos de ciúmes e de frustração, de impotência, incompetência e da eterna dúvida duvidosa. Mais que a isso se juntam outras. Mais fundamentais, embora talvez não tão antigas. Primitivas, isso com toda a certeza. Nada que a evolução não tenha contornado, porque há sempre um ramo que sabe seguir o caminho certo. Caminho certo. Nem eu sei bem já o que é certo ou errado. Mas acho que é possível dizer que não há certo ou errado em assuntos interiores. Diferenças que assombrosamente se assemelham ao comum e ao passado, ao ponto de conseguirmos perceber que nada muda além de nós. Podes ser outro e com outros olhos, mas as situações são as mesmas. Pessoas são pessoas. Às vezes sou eu que esburaco o meu próprio chão, eu sei. Mas há muito que desisti de controlar essa bomba da força maior que há em nós, porque, como diz aquela que tudo sabe, "só te sai o tiro pela culatra". É tentar ignorar mais do que comandá-la. Porque mais do que querer, há a certeza absoluta do impossível (sim, às vezes, há mesmo impossíveis que são completamente impossíveis, embora na generalidade das ocasiões os impossíveis sejam mais uns comuns quase impossíveis). E haja impossíveis na mesma frase! Nunca gostei dessa palavra, embora a use mais do que o que devia qualquer ser humano o dizer. Nada o é, dizem muitos. Mas muitos não sou eu. Amanhã regresso àquela que me viu nascer. Àquela que quando pus a cabeça de fora desse local mais protegido do mundo, embora a ferros, a custo e de tamanho e tempo reduzido, não foi chorar como todos o que fiz primeiro. Espirrei. Como que já adivinhando que é terra minha, mas não me quedo lá. Ou não, que do futuro não sei eu. Há demasiadas variáveis para que se pense poder adivinhá-lo...
1 comentários:
as viagens interiores fazem-nos crescer.*
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